7 de agosto de 2009

Por que se escreve?
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. (Adélia Prado)
Que mistério é escrever... Mário de Andrade disse que um livro revela para quem escreve um lado ainda desconhecido. Descobrimos, espantados, uma parte de nós que não sabíamos que existia. Então – dizemos hesitantemente – somos assim? Adélia Prado confessou, certa vez, que só reconhecia um poema seu pela letra. Isso mostra bem o abismo dessa viagem. É um mergulho de poucas certezas e inevitáveis surpresas. Não sei quem disse que literatura é feita por e para leitores. Não é um círculo tão grande assim, convenhamos. São poucas, de fato, as pessoas que vivem para escrever e ler. Nem digo economicamente. Digo pessoas para quem a leitura é uma parte indispensável da vida. O curioso é que a literatura é mais literatura quando menos quer ser. Quando se escreve pensando no efeito de certas frases em certos leitores, adeus naturalidade, adeus mistério da escrita. Os deuses da literatura não devem ter lá muita paciência para os tolos escritores de ridícula vaidade. E escrever é dizer algo. Nem que seja a si mesmo. Para que serve a literatura? É uma resposta difícil. Imediatamente, para nada. Não tem um sentido óbvio, uma função que a distinga. Não é como os aviões que, quando não caem, nos levam de um lugar a outro. Não é como a medicina, que cura doenças e nos enche de inquietações. Os sentidos da literatura são obscuros e pouco óbvios. Quem os descobre egoisticamente não os revela, ou talvez não saiba como revelá-los. Não sei que escritor (acho que Gide), ao ser indagado por um jovem que estava começando a escrever, aconselhou: “Se puder não escrever, não escreva”. No fundo é mesmo isso: a escrita deve ser para aqueles que não suportem, sob nenhum pretexto, ficar sem ela, porque... não agüentariam. E o importante: é escrevendo que se confessa fraquezas com dignidade. É bom confessar fraquezas. O papel as aceita bem, generosamente. Porque viver é a arte de falar em outras coisas, enquanto as dores doem. Quem escreve dialoga, lealmente, com as dores, e as transforma (quem sabe?) em arte. Talvez isto sirva ao leitor, talvez não. Mas aí, meus amigos, é outra história.

Felipe Peixoto Braga Netto

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